“El verdadero jardín nunca es verde”

“A função da arte é causar o desconforto e dele gerar o debate”, palavras proferidas no dia 07/10/2017 pela artista Nicola Costantino no Centro Cultural Néstor Kirchner, me fizeram lembrar das últimas semanas de intenso debate acerca de algumas performances no Brasil.
Aqui em Buenos Aires, acompanhei uma exposição de Eco Arte, Arte Ecológica, Arte verde. Entre tantos trabalhos expostos o que me chamou atenção foi o da Nicola. Com o título “El verdadero jardín nunca es verde” sua série une performance, fotografia, escultura e vídeo. A obra exposta é uma releitura de “O jardim das delícias terrenas” de Hieronymus Bosch (1504). 


Nicola em sua obra posa para as fotos e recria uma realidade distópica. Em um jardim desértico, mulheres e andróginos são sujeitos de resistência e proteção. No centro da instalação a escultura representa a fonte da vida eterna, que petrificada, parece resistir às pedras do deserto e escoar por entre a paisagem apocalíptica. Entre as mulheres encontra-se uma ninfa que cuida e mergulha seu bebê nas águas, relembrando o mito da deusa-ninfa Tétis que segura seu protegido Aquiles pelos calcanhares.
Adiante, mulheres abatem um porco para alimentação e no lugar das entranhas saem frutas em abundância. Maçã, o símbolo ocidental do pecado, alimenta essas mulheres neste espaço penoso. Em meio aos animais abatidos e aos que estão empalhados, a imitação crua da vida é o que resta para os seres. E a artista segue brincando com a natureza morta.
Por fim, a revolução que nascerá das mulheres é vigiada por uma Afrodite híbrida no topo da montanha.

Nunca havia visto uma exposição com tal profundidade. Realmente, a sua arte me gerou um mix de sentimentos: o desconforto da distopia e a tranquilidade em perceber que a tarefa para a recriação de toda a destruição causada pelo homem (leia-se macho e não humanidade) virá através de outros gêneros.

Depois de refletir sobre a exposição cheguei a mesma conclusão que a artista: uma das funções da arte é causar o desconforto.

Precisamos aprender que nem todo jardim é verde e começar a tratar dos problemas de fato, sem desviar o foco para questionar o valor da arte.

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