“Por um obscuro caminho, ele me acha”

As pinturas da artista Alice Lara emanam uma plurivocidade de sentidos. Analisando o conjunto das obras da artista, percebe-se a discussão sobre a animalidade, o bruto e lascivo, evidente em outras obras como a série “Amores perros” (2013).

A obra “Por um obscuro caminho, ele me acha” (2017), mostra a precisão e consciência das pinceladas ríspidas, revelando a pujança de sentimentos postos na imagem. De um extremo a outro, do delinear das linhas curvas, a hesitação é elaborada na tela.  O algoz observa um veado. O veado observa o algoz. A ambiguidade grita, mostra o jogo dúbio de sedução. Ao esconder-se, a vontade oscila entre permanecer escondido e ser encontrado. Pintura irônica, representa o receio de dizer aquilo que não pode ser dito, ou pode. Aqui, a libido e o temor se confundem ludibriando a testemunha do encontro, nós, os espectadores.

A pintura adquire caráter metafórico a partir da analogia entre animais humanos e não-humanos. A ideia central da obra gira entorno da animalidade, na brutalidade performada e na elucidação da intensidade do que é mais humano: a abusividade sedutora. Não existe perspectiva sem o outro. E a fuga esbarra na ânsia do contato com o observador, dificultando a cisão. A atração sufocante dos corpos humanos não consegue visualizar um fim por receio da ausência.

O caminho do veado – ou o do algoz – pode ser confundido com a fuga presente em “Pursuit” de Sylvia Plath, já que na percepção do outro, na  tocaia, não existe surpresa.

“Há uma pantera me esperando de tocaia:

Algum dia vou morrer graças a ela;

Sua gana ateou fogo nas florestas,

Ela espreita, envolvente como a lua.

Muito macio e suave desliza seu passo,

Avançando sempre pelas minhas costas;

Da cicuta soturna, gralhas gritam desastre:

A caçada começa, o cerco está armado”.

(Sylvia Plath, Pursuit, 1974).

Em Plath, o encontro entre o “eu” e a pantera é inevitável, pois o desejo está presente e ceder ao desejo é deixar-se capturar. O silêncio é imperativo, há a aproximação do desejo. Explora-se a tensão, a captura é imaginada. O consciente temor encurrala. O meio olhar já diluído permite o flerte furtivo com a visão parcial. O espaço que revela o “entre” não é suficiente para separar a atração silenciosa. Não se mede a distância física, a presença está ali.  Ser presa ou predador não importa quando se está consumindo a existência do momento.

Com Lara, o enigmático caminho é sedutor pela não-objetividade, pelo desconhecimento da intenção. A obra dá dimensão de movimento, sugerindo um paradoxo. A angústia do encontro prevê o fim – ou o início – na consumação proeminente. Assim, a imaginação do desejo inominável, contorna e delimita o que está representado em tela, dando um sentido metafórico à pintura.

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