Brasília em atos: ato 7

O ano era 2016 e o heterossexualismo no Planalto Central era lei.

Ônibus lotado, eram 16 horas quando os milicos resolveram abordar. Em ordem, como as fileiras dos ministérios, os candangos desceram um por um sem pressa.

Com a certeza no olhar, o estereótipo foi a premissa e a ordem foi dada: encosta aí, parada aí que o azar é seu. Baculejo no DF só se for com doses de escrotidão.

Mãos no corpo, apalpavam os seios e questionavam as anomalias. Brasiliense raiz não sabe o que é subjetividade, não entende o que foge dos manuais e tem medo. Não se pode reclamar sobre a incursão ou o gambé revista sua casa, seu íntimo. Quem foge das linhas é jogado à margem. Quem vive na beira está sujeito à violação. A polícia está a serviço da padronização: objetividade vestida de azul e amarelo.

Fora do imaginado, a ausência não presume inocência e cisma. Ao fim, a humilhação fica completa com aplauso do povo. Pessoas cansadas se contentam com o pouco que ganham, com a violência não sentida na pele e a empatia não capturada com os olhos.

Existe uma lenda que nesta terra só nascerão servidores públicos e que seu objetivo de vida será a manutenção dos homens de bem, do legado dos brancos, das famílias modelos que passeiam nas entrequadras com cachorros de pequeno porte. Aposto que nas maquetes de Oscar Niemeyer o ser “sapatão” não estava previsto. Desenharam-se tesouras que cortam os eixos, mas não foi imaginado o nascimento da contrarregra.

Pequenas sapatilhas que amam esta cidade circulam sem preocupação. Dizem que amam a Cei, mas quase nunca saem do Plano. Exibem sadismo, colocam a culpa no tempo. Mal elas sabem que Brasília é a terra da eternidade, espaço atemporal, encoberto de indiferença.

Assim, caminhões pegam a 020 e desejam partir em busca de novos ares, novas terras e brejos que mudam de acordo com as estações do ano.

Sapo nenhum sobrevive na secura.

 

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