Ode ao terror em verde-amarelo

Como digerir os acontecimentos do dia 20 de agosto de 2019? Os tiros, os aplausos e a comemoração. Em vídeo, um corpo no chão e em continuação, o outro em pé, os braços para cima, vibrando pela vitória. William foi assassinado. Ele havia dito que queria fazer história. Os gambés cumpriram mais uma vez a missão, o tribunal de rua, o rolo compressor de gente simples e pobre. Mas de onde vem os aplausos?

Relembro Hannah Arendt e sua sabedoria em teorizar os horrores da segunda guerra mundial. Como o discurso violento conseguiu capturar tão facilmente as massas? Em Origens do totalitarismo, obra publicada em meados de 1951, Arendt tenta compreender como foi possível acontecer a devastação humana vivida na primeira metade do século XX. Afastada dos conceitos de burguesia e proletariado, ela separa a sociedade em três partes: a elite, a ralé e as massas. A elite é configurada pelo discernimento, pela intelectualidade, fatores que não impedem que este grupo tenha um ímpeto pela crueldade e pelo fascismo; A ralé é caracterizada por estar embebida no fracasso, na frustração profissional e pessoal. São pessoas instáveis que transformam insatisfação em violência; Já as massas são compostas por um bloco plural de ideias, necessidades e individualidades. Dificilmente se envolvem com política e só se preocupam com a esfera pública para sanar interesses pessoais.

Hannah Arendt explica que o fascismo não é aniquilado com facilidade e que o seu esquecimento pela população não significa sua extinção. A conduta fascista está presente no indivíduo e fica à espreita para mostrar-se ao mundo. À espera por um líder, encontra no fracasso da ralé a personificação que comandará as massas. Em uma aliança perigosa, a ralé e a elite maquinam formas de capturar e doutrinar a pluralidade das massas indecisas.

Voltando ao episódio da Ponte Rio-Niterói, os aplausos, a ode ao terror não podem ser frutos de lavagem cerebral. Televisionado para todo o país, a espetacularização da violência e a apologia ao horror causa admiração e medo. Ferramentas de todo totalitarismo, a propaganda fascista ganha força na segunda guerra mundial ao utilizar caricaturas e promessas de aniquilação contra negros, deficientes, LGBTQI e judeus. Essa mesma propaganda foi aprimorada e utilizada no século XXI. Por meio das mídias digitais, elas se espalham e tornam-se diversas, buscando cumprir o seu propósito.

Com a vontade sádica de caça à corrupção iniciada em 2010, até as investidas que beiram a irracionalidade envolvendo o kit gay e a mamadeira de piroca, testam os limites conceituais do bom senso e conquistam a ralé e as massas, que vestidos de verde amarelo, batendo panelas ou ausentes nas discursões, utilizando o palavratório apolítico do voto nulo. Em cima do muro, assumem uma postura sadomasoquista, como explicita Adorno em A Teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda, 1951, ao analisar as condutas das pessoas que amam e morrem pela figura do líder.

O gosto pelo “pagar pra ver” só cabe à parcela confortável e privilegiada que, resmungando, diz que é preciso deixar o presidente trabalhar. Esse, que por sua vez, eleito pela ralé raivosa e pelo silencio das massas, promove a política da destruição. Democraticamente eleito para criar o caos e se preocupar com pautas supérfluas, beneficia a insanidade e não só profetiza a destruição, como a realiza sem cerimônias.

Ao seu redor, a propaganda em forma de fake news esnoba o real, distorce todos os critérios de transformar algo crível. Brasil, o país sem fome, sem miséria, sem racismo estrutural, sem feminicídio e do controle de fezes da população para combater problemas ambientais. O importante é que o céu de Brasília continua azul e plástico.

Na capa do jornal de maior circulação no DF, dia 20 de agosto, exibe-se o apoio à militarização das escolas. Há a queda do secretário de educação que se recusou a realizar a militarização à força. No centro da página, a matéria Viagem a bordo dos livros exibe três jovens de uma dessas escolas, com livros nas mãos. Quase que despercebido, o jornal nos esfrega na face, em plena terça-feira, um jovem segurando o livro Minha luta de Adolf Hitler. Um soco no estômago de todos os educadores que prezam pela verdade e justiça.

O desconforto do dia me fez chegar a Hannah Arendt e em todas suas análises sobre o totalitarismo. No íntimo, não queria ver a massa apática e a ralé liderando em prol da organização, da família e dos bons costumes. Contudo, os sinais fascistas já fazem parte da rotina e não temos dúvida de que tempos difíceis estão por vir.

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